Baby Gras

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Desde os anos 1970, Baby Gras desenvolve uma produção contínua entre pintura, escultura, colagem e instalação - Foto: Divulgação

Com mais de cinquenta anos de carreira, a artista voltou a apresentar novas séries no último ano, como Sem Fronteiras, In Natura e Intimus, enquanto suas obras – telas, esculturas, colagens e assemblage – seguem presentes em coleções no Brasil e na Europa

“Arte é uma conversa entre o que está dentro e o que está fora, entre o real e o subjetivo, entre a beleza e o insólito.” A definição vem da artista Baby Gras, alguém que se acostumou a viver entre mundos distintos, múltiplas linguagens e com referências diversas. Argentina de nascimento, paulistana por escolha e brasileira por cidadania, Baby trata a arte como um diálogo permanente, distante de respostas definitivas e mais próxima de um território de investigação.

Bárbara Juana Maria Gras nasceu em Buenos Aires, em 1955. Com quatorze anos, mudou-se com a família para São Paulo, cidade onde consolidou sua vida artística. Desde o início dos anos 1970, desenvolve uma produção contínua entre pintura, escultura, colagem e instalação, sempre em contato com a experimentação material e a pesquisa visual. Ao longo desse tempo, construiu uma obra marcada por permanência e inquietação simultâneas. “Aprender todos os dias e pôr em prática o que está nas entrelinhas”, define.

A artista costuma associar a própria sensibilidade a uma infância vivida entre cidades e culturas distintas. Para Baby, essa experiência a aproximou de muitas referências. “Por ter tido uma infância entre Buenos Aires e Genova, na Itália, assimilei ambas as culturas”, diz. Da experiência italiana, guarda a influência de uma tradição estética que a acompanhou desde cedo. “A Itália, como berço das artes, me influenciou desde adolescente, refinou meu olhar e deu o start à minha produção.” Já a origem argentina, em sua leitura, ampliou a percepção de um universo diverso. “A Argentina apurou meu olhar através de vivências latinas e europeias.”

Em São Paulo, experimentou outra energia. A cidade, com seu ritmo acelerado e sua mistura permanente, tornou-se também fonte de estímulo estético. “Mais fresco e jovem, São Paulo me mostrou a explosão de cores e formas e a exuberância da natureza.” O resultado dessa soma aparece na maneira como define a própria percepção. “Todos os olhares multiculturais se entrelaçam, se somam e inspiram minha arte e meu olhar.” Baby ainda acrescenta: “Meu olhar não é fixo, está sempre em deslocamento.”

Para ela, o processo criativo começa antes do gesto visível. Nasce em uma zona silenciosa, em que memória, observação e intuição se organizam lentamente. “Uma obra de arte nasce para mim de um movimento interno silencioso, muitas vezes após um período de pausa, armazenamento e absorção do universo em torno.” Nada acontece de forma uniforme. “O processo não é linear. Surgem desejos desorganizados de expressar aquilo que se transformará em uma obra.” O ateliê torna-se, então, lugar de escuta e tentativa, onde as ideias se materializam aos poucos. “Testo materiais, superfícies, gestos, técnicas até encontrar um ponto de encontro entre si.”

Essa relação direta com a matéria ajuda a compreender sua construção ao longo dos anos. A obra de Baby Gras revela predileção por formas compactas e maciças, em composições nas quais a estrutura visual nasce tanto da construção quanto do desgaste. Cor, transparência, raspagens e incrustações convivem como elementos de uma mesma gramática sensível. Em muitos trabalhos, matéria, cor e luz parecem indistintas, como se fossem partes de um único corpo.

Embora dialogue com vertentes do abstracionismo geométrico, sua pesquisa busca menos a rigidez formal e mais a relação entre forma, presença e emoção. A inspiração, diz, não vem apenas de momentos excepcionais, mas do cotidiano. “Busco inspiração no dia a dia. O olho trabalha e armazena.” Talvez por isso, ao definir a própria característica mais marcante, recorra a uma síntese precisa: “Acho que olhar formas e sentimentos.”

Em seu ateliê, Baby Grass reflete: “Ainda desejo descobrir as surpresas e vestígios das memórias dos materiais e do processo criativo” – Foto: Divulgação

Se a obra carrega espontaneidade, ela também revela disciplina técnica. Sua formação combina arte e áreas aplicadas, o que ajuda a explicar o rigor construtivo presente em muitas peças. Estudou pintura e propaganda e marketing na Escola Panamericana de Arte; frequentou cursos de desenho tridimensional, escultura e joalheria no Cabrillo College; estilismo no Studio Berçot e também na Casa Rhodia, em São Paulo; fez pós-graduação em design têxtil na Central Saint Martins; e aprofundou estudos em escultura e pintura na FAAP, com nomes como Nikolas Vlavianos e Gregório Gruber. Participou de importantes exposições ligadas ao design e ao têxtil, com passagens por instituições como o Museu da Casa Brasileira e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. “Desde pequena era ligada em música, arte e arquitetura”, recorda. O repertório se ampliou com o tempo: “Fui influenciada por nomes como Walter Ley, Ismael Nery, Calder, Miró, Chagall, Picasso, Baro e Pietro Della Francesca”, relata.

Ao longo das décadas, Gras manteve a produção artística em diálogo constante com a vida cotidiana, a família e a curiosidade intelectual. Em sua visão, a arte permanece viva justamente porque não se fecha em certezas. “A arte para mim é uma pergunta aberta. Talvez seja justamente isso que a mantém viva.” Ao mesmo tempo, reconhece na prática artística uma forma de permanência. “A arte faz e não faz sentido, me ensinou o que permanece depois do tempo.”

Quando fala às novas gerações, prefere estimular liberdade e experiência. “Aconselharia aos jovens experimentar e não se limitar a uma só mídia, e não jogar fora os trabalhos que não gostam em um primeiro momento. Ainda que às vezes, por falta de espaço, acabe fazendo uma seleção.”

Ao falar de felicidade, Baby retorna ao essencial. “Felicidade pra mim é ter saúde e desfrutar da minha família e da arte que me rodeia, em todos os sentidos, como dança, design, música, passeios e amigos.” Entre suas maiores realizações, enumera afetos e percurso: “Meus filhos, meus netos, meus amigos, meus estudos e minha arte.” Depois de mais de cinco décadas de produção, porém, nada sugere acomodação. A busca continua voltada ao que ainda não se revelou. “Ainda desejo descobrir as surpresas e vestígios das memórias dos materiais e do processo criativo.”

Serviço:

Instagram: @babygras_arte_1
www.babygras.com
(11) 99999-2680
Praça Vilaboim 36, Ap. 121 – Higienópolis – São Paulo

Por Luciana Albuquerque