Mãos à obra com o pé no acelerador

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Heitor Dall’Agnol
Foto: Gilmar Rose

Um conto de fadas em alta velocidade

A história real que estou compartilhando com vocês tem que começar como um Conto de Fadas: “Era uma vez”, em 2015, um garoto, na época com 5 ou 6 anos de idade, que se sentou num kart e deu a largada para uma história que nos leva a acreditar que as fadas de fato existem.

Não foi na Califórnia ou na Flórida que essa magia da Disney começou a acontecer, foi no Rio Grande do Sul, em Passo Fundo. O nosso personagem é o Heitor Dall’Agnol – filho do Fifo, dono de uma oficina –, que desde bebê era fascinado pelo ronco dos motores. De macacão e capacete, com os olhos azuis brilhando, montou em um pequeno kart para participar de uma corrida. Acelerou muito e viveu a sua primeira experiência confrontando o sonho com a realidade. Chegou em último!

Sem experiência ou treinos, sem um equipamento competitivo, o brilho nos olhos se transformou no choro da derrota. Mas, Heitor teve sua primeira lição: que a escolha de seguir adiante enfrentando as adversidades é sempre nossa.

Nos anos seguintes aprendeu a vencer e a perder sem chorar. Conquistou títulos regionais e estaduais, iniciando uma bela coleção de troféus. E tudo isso com recursos limitados, já que nem sempre contava com pneus novos ou o melhor motor, mas as dificuldades serviram como aprendizado e fizeram com que ele buscasse desenvolver cada vez mais o seu talento.

Heitor na equipe TMG
Heitor na equipe TMG, patrocinado por Bradesco, Vockan, Farmácias São João, Snapdragon e Pizza Crek – Foto: Gilmar Rose

Hora da decisão

Com o Heitor acumulando sucessos no sul do Brasil, na época com seus oito ou nove anos de idade, era necessário uma mudança para São Paulo para enfrentar a comunidade mais competitiva do kartismo no país. Mas seus pais não tinham condições de abrir mão da oficina em Passo Fundo que garantia o sustento da família e, em partes, o “paitrocínio” da carreira de Heitor.

Nesse momento, o conto de fadas se fez presente novamente: os recém-aposentados e padrinhos de casamento dos pais assumiram o desafio de trazê-lo para São Paulo, para que aquele “Piá” deixasse de brincar para treinar de verdade. Sob a tutela do tio Celso e da tia Cleide, o piloto passou a disputar os campeonatos Paulista e Brasileiro de kart.

Mais uma vez foi necessário compatibilizar o sonho com a realidade, e isso exigiu que transformassem um velho caminhão baú num eficiente, mas não tão sofisticado “motorhome”, no qual viviam no kartódromo e se locomoviam de corrida em corrida pelo Brasil inteiro.

Novo desafio

Tendo amealhado vários títulos e vitórias, inclusive campeão paulista e brasileiro, modestos apoios de empresas surgiram e com eles a oportunidade de conhecer Felipe Massa – o grande nome brasileiro vindo da Fórmula 1, onde manobras questionáveis o deixaram à margem de um título de campeão mundial. Massa, impressionado com o talento e caráter do “guri” e decidiu apresentá-lo ao amigo Édison Cortez, um empresário de sucesso amante do automobilismo que poderia ajudá-lo profissional e financeiramente a seguir no kartismo europeu.

Mais uma vez Heitor teve que encarar o confronto do sonho com a realidade, pois os patrocínios não vieram e os custos na Europa eram muito mais elevados do que se esperava. Mas, desta vez, o nosso piloto não estava sozinho. Tinha ao seu lado, Édison, que mais do que mentor e professor, se tornou o amigo que mudaria a sua vida.

Heitor com Felipe Massa
Heitor com Felipe Massa e sua esposa, Raffa – Foto: Gilmar Rose

Sem glamour, com muitas adversidades e, acima de tudo, perseverança, o sonho de morar na Itália se tornou realidade, porém vivendo na oficina da equipe, viajando com os mecânicos para as corridas e contando com o equipamento que o orçamento permitia – muitas vezes, com peças usadas descartadas pelos pilotos principais da equipe.

O aprendizado rendeu, desenvolveu muito a sua técnica de pilotagem e o fez aprender dois idiomas: o inglês e o italiano. Estando longe da família, em um país estranho, as fadas tiveram que trabalhar dobrado para ajudá-lo a controlar o emocional diante de tantos desafios.

Com a venda da equipe Praga, Heitor retornou ao Brasil para conquistar o campeonato Sul-Americano de kart, um segundo lugar no SKUSA –campeonato Norte-americano – e um brilhante terceiro lugar no campeonato Mundial FIA de kart.

Grande passo

Era princípio de 2025 e Heitor com 15 anos e dono de um respeitável currículo no kart. Ele estava pronto para estrear no automobilismo e meu amigo Édison me contaminou com o seu sonho de levar o Heitor para a Fórmula 1.

Quando dei por mim, já tínhamos um plano, o Campeonato FIA Fórmula 4 Brasil. Porém, as dificuldades, mais uma vez, exigiam a intervenção das fadas. Sem um sólido patrocínio não teríamos como arcar com os custos de uma temporada, e as vagas nas equipes estavam sendo preenchidas.

Mais uma vez, o conto de fadas se tornava realidade e, desta vez, eu fazia parte dele. A equipe TMG dispunha de uma última vaga e tivemos a felicidade de contar com o patrocínio do Bradesco. Num piscar de olhos, parte do carro se tornou vermelha, ostentando o logotipo e a arvorezinha branca. Lá estava o Heitor, sentado pela primeira vez em um carro para um treino no circuito Velo Città. Após algumas poucas voltas, os melhores tempos foram surgindo, fazendo com que terminássemos o dia em primeiro.

Heitor Dall’Agnol segue em busca de patrocínios
Com 243 pontos e quatro vitórias, Heitor Dall’Agnol segue em busca de patrocínios para disputar o EuroCup 3 em 2026 – Foto: Gilmar Rose

Na abertura do campeonato, veio a conquista da pole position, porém a dura realidade se seguiu com a desclassificação por um milímetro abaixo da altura mínima. As fadas voltaram a entrar em ação e, mesmo largando em último, Heitor terminou em quarto lugar, seguido de um quinto e um primeiro naquele final de semana.

No decorrer do ano, se juntaram ao nosso time a Vockan, a Farmácias São João, a Snapdragon e a Pizza Crek, que agora celebram a conquista deste campeonato. Com 243 pontos e quatro vitórias, esse capítulo do conto de fadas do Heitor Dall’Agnol nos leva ao sonho de disputar em 2026, na Europa, o Campeonato EuroCup 3.

Nesse momento, ainda estamos buscando patrocínios para viabilizar esse passo, mas com a ajuda das fadas teremos mais para contar no final de 2026. Um abraço e seguimos acelerando!

Por Willy Herrmann