LIDERANÇA COMPARTILHADA

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Team Building, valorização do capital humano e responsabilidade com o meio ambiente traduzem a trajetória de liderança de Jane Campos, CEO da Radici Plastics, em seus mais de 20 anos de casa

No posto de CEO da Radici Plastics na América Latina, uma empresa líder do segmento no Brasil, Jane Campos comanda uma fábrica em Araçariguama, no interior de São Paulo, com 85 colaboradores diretos e 20 indiretos, e excelentes resultados, entre eles, ter fechado 2020 com a certificação ISO 45001, que reconhece a empresa como uma das mais seguras para se trabalhar. Mas, a executiva não é adepta da autopromoção. “Só estou nesse posto porque tem um time que me leva para cima. Ninguém se torna um líder se não for capaz de fazer team building. Para ser um grande líder,  é  preciso ter sido um bom aprendiz e usar a sua experiência para guiar um time para onde ele precisa chegar. Não há mais espaço para o diretor que não ouve o que acontece na operação. É preciso estar junto, entender e mitigar as fraquezas deixando o time cada vez mais forte”, confidencia Jane que já soma mais de 20 anos na companhia.

A executiva que teve seu primeiro emprego em uma empresa de plásticos de engenharia, onde ficou por 16 anos passando por toda escalada de um carreirista enquanto estudava, tem um vasto conhecimento no setor. Iniciou sua trajetória no Grupo Radici em 1998 como Gerente Comercial e, pouco tempo depois, assumiu o cargo de CEO, sendo responsável por desenvolver negócios em outros países e na América Latina. Desde 2011, assumiu a operação da Radici Plastics para América do Sul. “Tem sido um aprendizado constante nesses mais de 20 anos, especialmente no Brasil onde somos desafiados o tempo todo com as sucessivas crises políticas, bruscas variações cambiais e complexo sistema tributário”, sublinha.

O que se observa nos últimos anos é que o espaço para um ambiente pautado na falta de flexibilidade, centralização das decisões, está cada vez mais restrito. E os sinais apontavam esse cenário de longe. Uma pesquisa de 2013 feita pelo Hay Group, com a Universidade de Harvard, mostrou que entre os 95 mil líderes de 49 países, cerca de 50% criavam climas desmotivadores, contra 19% que promovem locais de trabalho de alto desempenho. Já no Brasil, onde foram entrevistados mais de três mil gestores, 63% criavam um clima desmotivador contra 12% que iam na onda contrária. “Nosso modelo organizacional é funcional tradicional, mas nem por isso é rígido e com pouca comunicação. As reuniões de gestão são mensais e todos os managers participam e acompanham o que acontece nas outras áreas. Cada um sabe bem quais são suas metas e qualquer desvio ou dificuldade de atingir é debati- do entre o time”, explica Jane.

Gestão e capital humano

De acordo com um estudo publicado pela Maxis Global Benefits Network em fevereiro de 2019, empresas que investiam no bem-estar e na importância do capital humano, lucravam mais. O estudo ainda aponta que, em um período de 11 anos, empresas que apostaram na criação de uma cultura positiva no local de trabalho tiveram aumento de 682% de sua receita. Já aquelas que não deram atenção a isso registram aumento bem inferior, de apenas 166%. Na Radici, o investimento em capital humano, treinamento e reconhecimento, conseguem um resultado de alta performance. Além dos preceitos básicos para se fazer uma boa gestão, a companhia preza pelo bom uso de ferramentas administrativas, definição de metas factíveis e controle dos KPI’s. “Entendo que o verdadeiro desafio é ter um time sempre motivado. Os objetivos precisam ser claros, diretos e nunca deixar o time sem saber aonde deve chegar. Não podemos deixar que a rotina domine o ambiente de trabalho. Além disso, a maior parte dos gestores que temos foram formados dentro da Radici, identificamos as pessoas que se destacam e investimos na qualificação profissional, depois cabe a eles estarem atualizados e atingir as metas propostas e superá-las”, sinaliza a CEO para América do Sul.

Outro ponto muito importante é a mudança de mentalidade e hábitos dessa geração. “Os jovens são menos pacientes em ter a ascensão de suas carreiras, a ambição é saudável, mas é preciso conter um pouco este ímpeto e desafiá-los em suas atividades para que adquiriam experiência emocional, mas muitas vezes eles não esperam e manter este capital humano dentro da organização é um desafio. Entendemos que o capital humano pode ser nosso maior sucesso ou nosso fracasso. Pensamos e buscamos ações para o desenvolvimento constante do pessoal, treinamentos in company, idiomas, campanhas, brindes, datas comemorativas, além de todo o desafio diário para aperfeiçoamento de carreira. No fim das contas a regra a se seguir é a da meritocracia”, relata a executiva.

Para ela, encarar os desafios de mercado e transformações sociais só colaborou com a sua forma de liderar, inclusive em um meio predominantemente masculino. “No passado era visível a resistência em ter uma mulher na liderança, especialmente no mercado de plásticos de engenharia. Mas confesso que soube lidar com essa situação da melhor forma e nunca tive problemas. No grupo Radici não consigo perceber a diferença entre o executivo masculino e o feminino, simplesmente somos executivos e temos desafios de igual forma. A meritocracia sempre foi a chave e o gênero nunca foi um pré-requisito. Atualmente ainda sou a única mulher do grupo como CEO fora da Itália, mas na matriz temos outras mulheres diretoras poderosas”, posiciona Jane. Ela reforça a importância de se manter atualizada e em busca incessante por conhecimento profissional e pessoal. “Terminei uma especialização na FGV há dois anos e foi muito bom participar com uma turma jovem, cheia de energia e começando a escalada de suas carreiras. Não era um tema novo, mas agregou muito. O mundo está mudando rápido e precisamos estar atualizados. Manter a saúde também é importante, precisamos ter forças para enfrentar o dia a dia. A prática de esportes melhora a mente e o físico e estou sempre ativa”, diz Jane, que é formada em administração de empresas com especialização em contabilidade, MBA em gestão estratégica pela FGV e tem um vasto conhecimento do mercado de plásticos de Engenharia.

Pandemia: desafios e novos projetos

Fábrica da Radici Plastics, em Araçariguama

A pandemia trouxe desafios para praticamente todos os setores. Com os polímeros não foi diferente. Na primeira onda, segundo a CEO da Radici, o segmento que se manteve em alta foi o alimentício. Os demais praticamente pararam. Com a rápida retomada, outros setores tiveram forte crescimento, com  exceção do mercado automobilístico. Os maiores destaques foram, embalagem alimentícia, linha branca, eletrodomésticos, construção civil, mobiliário e segmento agrícola. “As poliamidas lideraram o ranking de crescimento seguidos pelo PBT nas aplicações de componentes para plugs e tomadas, carcaças para ferramentas elétricas, componentes para bens de consumo e peças estruturais. O segmento moveleiro teve forte crescimento com a necessidade de home office e as vendas on-line de cadeiras para escritórios”, relata Jane Campos.

Nesse contexto, não tem como descartar o mo- mento crítico de falta de matéria-prima. O que para a indústria significa a tão temida pausa da operação. Com o olhar para a inovação e a sustentabilidade como parte do propósito a empresa, Jane liderou o desenvolvimento do projeto EVA (Environmental Values Awareness). “Com a escassez de matéria-prima e, por sua vez, de embalagens, que ocorreu o ano passado, articulamos a devolução de algumas embalagens com os clientes e, com isso, entendemos que essa logística reversa era não só uma ação possível, como ecologicamente correta e lucrativa”, relata Jane.

Outro desafio foi o de fazer a gestão de pessoas nesse cenário inédito para líderes do mundo todo. “O maior desafio da minha carreira foi e está sendo a gestão de pessoas durante a pandemia, o desafio manter o negócio ativo e administrar o medo, temendo pela minha vida e do meu time. Nossa empresa não parou, nos protegemos e, com o tempo, entendemos que o ambiente de trabalho era seguro desde que seguíssemos o protocolo”, diz Jane. Como a matriz da Radici fica em Bergamo, na Itália, uma das primeiras zonas afetadas radicalmente pela Covid-19, a sede brasileira pode se antecipar na adoção dos protocolos de segurança. “É um ambiente controlado e seguro, não tivemos nenhum caso de contaminação interna. Não fechamos nossos escritórios, fábrica ou refeitório, mas controlamos o contato entre as pessoas nas salas, refeitório, toaletes, portaria e transporte, como também as pessoas que prestam serviços para a Radici, foram treinadas e obrigadas a respeitar o protocolo”, conta. “E mesmo com a redução significativa do negócio não ficamos nem um mês abaixo do ponto de equilíbrio e nenhum colaborador foi desligado. A retomada foi rápida, buscamos negócios em segmentos onde não tínhamos grande atuação e rapidamente nos equilibramos. Nossos departamentos de vendas e marketing foram ágeis e eficientes. O desafio agora é nos adaptarmos à nova crescente demanda e a falta de matéria prima, problemas no transporte internacional, por exemplo. O objetivo é proteger e garantir o abastecimento dos clientes cativos”, pontua Jane.

Jane Campos e o italiano Fabio Pandolfi,
diretor que veio reforçar o time brasileiro da Radici

A companhia também fez um trabalho intenso de comunicação trazendo informações atualizadas para todas as áreas por meio de cartazes, campanhas, vídeos, diálogos. “Acreditamos que as pessoas precisam se sentir seguras em seu ambiente de trabalho. Realizamos testagens mensais para triagem e rastreio de possíveis contágios internos, assim permitindo que, emocionalmente, pelo menos naquele momento, as pessoas se sentissem confortáveis. Um ponto muito importante que a pandemia nos trouxe foi o olhar para questão de saúde do nosso time e para 2021 nosso maior desafio será implantação de gestão de saúde corporativa”, relembra Jane. Nesse sentido, ela pontua a importância da área de RH que atuou junto com todos os gestores nesses novos desafios. “Algumas mudanças significativas vindas nesse cenário permanecerão. A liderança se mostrou cada dia mais próxima e presente de suas equipes, melhorando a comunicação. A pandemia nos mostrou que podemos e devemos nos reinventar sempre e que tudo isso faz parte da nossa trajetória profissional e pessoal. Não podemos permanecer em zona de conforto”, conclui Ana Caroline Monteiro, Gerente de Recursos Humanos da Radici.

Exemplo de projeto de sustentabilidade da Radici Plastics

Todos os olhares para o futuro

É inegável a discussão mundial a respeito das formas de produção e descarte do plástico. Intimamente ligados a essa questão, o foco da Radici está em poupar recursos naturais e manter a saúde do meio ambiente, sabendo que esgotamento progressivo dos recursos naturais compromete a qualidade e as operações de suas empresas, ao mesmo tempo em que levanta questões éticas inegavelmente. Assim, o Grupo apoia a realização de ações de sustentabilidade ambiental, seguindo três pilares: ecologicamente correto – economicamente viável – e socialmente justo, além do conceito dos 5Rs: repensar atos e atitudes do consumo, reduzir a geração de resíduos, reutilizar aumentando a vida útil do polímero, reciclar transformando, reaproveitar a matéria-prima e não consumir produtos que geram impacto. “Faz parte do nosso dia a dia os constantes investimentos em otimização dos processos. Recentemente trouxemos o foco para eficiência energética através do ensacamento automático dos produtos, equipamentos de produção com maior produtividade e menor consumo de energia e implementamos mudanças da iluminação de todo o parque industrial por LED. E esse ano estamos focando no processo de tratamento de efluentes”, menciona Jane Campos.

Segundo o Relatório de Sustentabilidade de 2019 da empresa, a Radici Group reutilizou 70% de água, reduziu em 51% a emissão de gases nos últimos seis anos e 40,3% da energia consumida vem de fontes renováveis. Foram investidos 7,6 milhões de euros em projetos ambientais em 2019 para a introdução de melhores técnicas, aumentando a eficiência energética, redução de emissões de gases e pesquisa e desenvolvimento de processos e produtos de impacto limitado, e 3,3 milhões de euros em custos de gestão e proteção ambiental, como certificação, resíduos, descarte e tratamento de água, em empresas italianas.

Já o projeto EVA, com a reutilização de pallets e big bags, prevê este ano a redução do corte de duas mil árvores e o equivalente a um container de 40” completo de big bags. Outro objetivo para este ano também é o projeto Aterro Zero: todo resíduo gerado na Radici tem um destino, seja ele reciclável ou passível de tratamento. “Fora os resíduos específicos do processo produtivo, uma empresa também gera resíduos comuns não recicláveis e o projeto Aterro Zero visa a reciclagem energética que é a tecnologia responsável por transformar os resíduos em energia elétrica e/ou energia térmica, sem contar a redução das emissões de metano, de gases estufa, eliminação de odores e dentre outros”, explica a CEO da Radici Plastics.

Conceitos dos 5 R’s

Sustentabilidade e certificações ambientais

A empresa é certificada na ISO 14001 desde 2017 e segue evoluindo e amadurecendo o processo, desenvolvendo projetos, estreitando metas. Outra iniciativa da companhia é o programa OCS – Operation Clean Sweep, um projeto global e verticalizado, dedicada a ajudar todas as operações de manuseio de resina plástica a atingir perda zero de grânulo, evitando que estes cheguem aos oceanos e no Brasil. “Nosso objetivo de que nenhum grão ou pellet chegue ao solo e termine nos oceanos. A Radici é uma das pioneiras a assinar este compromisso e assumiu essa responsabilidade também divulgando para todos os parceiros, clientes e concorrentes. Assunto apresentado na última edição da FEIPLASTIC, que teve grande aceitação e levantou a curiosidade de muitas empresas da cadeia de plásticos, mostrando não só os ganhos ambientais, mas também as possibilidades de otimização do processo produtivo”, relata Jane. “Na minha visão o meio ambiente é sobre como podemos impactar a vida das pessoas para adquirirem hábitos mais responsáveis e como isso pode ser levado para a vida pessoal do nosso time criando uma cultura ambiental a ser passada para demais gerações”, completa.

E para essa missão ela conta com apoio de Lucas Estefani, responsável na área de Gestão Ambiental e Juliana Souza, gerente de SGI. “Estamos em constante movimento e aprendizado e os mais diferentes projetos chegam até nós de forma cada vez mais arrojada. É bom sentir essa preocupação e engajamento que atravessa o oceano e vem da matriz até nós. A grande ação se realizada em difundir essas informações localmente, e em como conscientizar e mostrar que remamos o mesmo barco”, diz Lucas. “Como coordenadora do projeto na Planta do Brasil, me sinto desafiada e otimista com os resultados, pois além de preservar o meio ambiente, em especial a vida marinha, a limpeza da fábrica promove maior segurança aos colaboradores, devido a redução do risco de quedas, além do retorno financeiro para a organização”, completa Juliana.

Ana Caroline Monteiro, Gerente de RH, Juliana Souza, Gerente de SGI e Lucas Estefani, Gestor Ambiental da Radici Plastics

Para começar a mudança de mindset dos colaboradores, Juliana conta que pequenas práticas e palestras foram fundamentais. Com o time devidamente engajado e consciente, a operação avançou para o segundo step que prevê a adequação de equipamentos e operações. “O mapeamento dessas necessidades nos possibilitou um diagnóstico muito preciso e, somado ao apoio da alta direção, estamos caminhando para o amadurecimento do projeto”, relata a gerente de SGI, orgulhosa em poder influenciar positivamente as pessoas.

Trilha de sucesso

A Radici Plastics tem unidades fabris em todos os continentes, e cada uma carrega suas particularidades. No Brasil, encaram a falta de crescimento industrial, incentivo governamental, altas taxas tributárias, barreira alfandegárias, entraves, que infelizmente, dificultam e encarecem absurdamente a necessidade de investimento, seja na ótica tributária ou em disponibilidade de recursos para importação de equipamentos, deixando o país menos competitivo e dependendo cada vez mais de importação de produtos manufaturados. “O sistema tributário é complexo e de difícil entendimento até mesmo para os brasileiros. Explicar os riscos e adequações necessárias para nossa matriz demanda tempo, gasto com consultoria e, mesmo assim, deixa muitas dúvidas”, pontua Jane.

As diferenças culturais, tanto de capital humano, como de procedimentos e questões inerentes ao universo das multinacionais são respeitadas sem discussão de mérito. De acordo com o diretor industrial responsável pela área produtiva e supply chain, Fabio Pandolfi, italiano que veio reforçar o time brasileiro da Radici, há uma grande força de vontade dos colaboradores brasileiros, apesar de constatar que o nível de instrução médio é inferior ao da Europa. “As pessoas são muitos disponíveis e abertas a novos desafios e buscam aprendizado e melhoria contínua, isso é muito importante para manter o dinamismo necessário para encarar os desafios diários que o mercado brasileiro apresenta. E quando falo diário, entendo justamente diário: acho que uma certa instabilidade de base é o que impacta mais no Brasil, as vezes tenho a impressão de que ocupamos mais tempo correndo atrás das coisas ao invés de poder pensar no futuro”, analisa. “Meu maior desafio em solo brasileiro é tentar de adicionar aquele pouco de valor que consigo do know how italiano em produção de plásticos de engenharia, mas o que me deixa confortável é o capital humano elevado do time local da Radici Brasil”, relata Pandolfi.

Com o Grupo bastante integrado, atuante nos segmentos industriais, têxtil, químico e plásticos de engenharia, em constante crescimento, o prognóstico é bastante positivo. Depois de revitalizar o parque industrial brasileiro, foram investidos 35 milhões de Euros na ampliação de capacidade nas plantas do México, Estados Unidos e China. “Novos produtos são desenvolvidos constantemente na nossa área de Pesquisa e Desenvolvimento. Temos um time de marketing global bastante atuante, antenado e sensível às novas tecnologias. Para os próximos anos o grupo continuará investindo em economia circular e produtos de menor impacto ecológico, green products, e produtos de alta performance. A previsão de crescimento no Brasil para 2021 é de 10%”, adianta a executiva.

E como começamos essa conversa, falando do valor do capital humano e da liderança com responsabilidade, não poderíamos terminar falando das metas da executiva. “Meu foco é, junto com o meu time, levar a Radici Plastics ao topo nos negócios na região, sendo um exemplo de qualidade, integração, comprometimento com as pessoas e com o meio ambiente, no melhor modelo de atendimento aos nossos clientes”, finaliza a grande líder Jane Campos.

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