Quando as relações públicas encontram a gestão de eventos

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Ana Luísa Diniz Cintra, diretora geral do Centro de Convenções Rebouças
Foto: Divulgação

A trajetória de Ana Luísa Diniz Cintra mostra como a combinação entre reputação, visão sistêmica e liderança transformou o Centro de Convenções Rebouças em um hub estratégico para eventos de negócios, ciência e inovação, referência em governança, sustentabilidade, acessibilidade e integração com a cidade

Diretora geral do Centro de Convenções Rebouças há 27 anos, Ana Luísa Diniz Cintra construiu uma liderança marcada pela visão sistêmica, pelo cuidado com as pessoas e pela capacidade de integrar reputação, eficiência operacional e impacto social.

Formada em Relações Públicas, ao longo de mais de 40 anos de trajetória profissional, construiu uma carreira singular, com passagens marcantes pelo InCor e pelo Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP. Agrega ainda em sua carreira o posto de vice-presidente do São Paulo Convention & Visitors Bureau (SPCVB) e de conselheira fiscal da União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios (UBRAFE).

Sob sua gestão, o Rebouças deixou de ser apenas um espaço tradicional para congres­sos médicos e se consolidou como um centro de convenções multifacetado, conectado às transformações do mercado de eventos, às demandas de sustentabilidade, às novas tecnologias e à experiência do cliente.

Localizado no coração de São Paulo, o espaço realiza, em média, mais de 230 eventos por ano, transitando entre saúde, tecnologia, educação, marketing, inovação e eventos corporativos, mantendo um equilíbrio entre tradição e reinvenção. Dentre os destaques está o ESFE – Encontro do Setor de Feiras e Eventos – um dos principais fóruns do setor no país, idealizado e organizado por Otavio Neto, CEO do Grupo On Media, que há 20 anos é realizado no Centro de Convenções Rebouças e há 10 conta com o selo Carbono Zero pela Eccaplan.

Nesta entrevista, Ana Luísa fala sobre liderança feminina, gestão de ecossistemas complexos, tecnologia, sustentabilidade, reputação e os desafios de conduzir uma unidade de eventos do complexo hospitalar HC, uma operação estratégica que transita entre o público e o privado, sempre com o propósito de gerar impacto positivo.

Hands On: Você tem uma formação sólida em Relações Públicas, uma área centrada na gestão da reputação e no relacionamento com stake­holders. Como essa base influencia a sua atu­ação como diretora do Centro de Convenções Rebouças?

Ana Luísa: Influencia totalmente. Eu costumo dizer que, mesmo mudando de função, eu nunca deixei de ser relações-públicas. A gestão de um centro de convenções é, essencialmente, uma gestão de re­lacionamentos: com clientes, fornecedores, poder público, comunidade local, imprensa, parceiros e, no nosso caso específico, com um grande complexo hospitalar. Hoje em dia, as relações públicas estão virando o suprassumo dentro das empresas. Quando me formei, ninguém sabia exatamente o que era essa profissão. Minha formação me deu uma escuta muito atenta, uma visão de risco re­putacional e a capacidade de olhar o negócio de forma sistêmica. Quando você está à frente de um espaço que recebe milhares de pessoas por ano, qualquer decisão impacta diretamente a imagem da instituição. Isso exige coerência, ética, clareza de propósito e muita responsabilidade.

HO: Sua trajetória profissional está profunda­mente ligada ao Hospital das Clínicas. Como foi essa transição da área da saúde para o universo dos eventos?

AL: Na verdade, eu nunca saí completamente da área da saúde. O Centro de Convenções Rebouças é uma unidade do Hospital das Clínicas (HC), então existe uma continuidade. Eu trabalhei muitos anos no InCor e no Serviço de Relações Públicas do HC, e sempre tive envolvimento com a organização de congressos médicos. Quando surgiu o convite para assumir o Rebouças, eu já conhecia bem o “outro lado do balcão”, porque eu organizava eventos como cliente. Isso fez toda a diferença. Passei a en­xergar as dores dos promotores, a complexidade operacional, o nível de estresse envolvido. Desde o início, meu foco foi acolher quem organiza eventos, porque não é um trabalho simples. São muitos de­talhes, muitos fornecedores, muitas variáveis.

HO: Essa vivência como organizadora ajudou a moldar seu estilo de gestão?

AL: Sem dúvida. A gestão do Rebouças sempre foi pautada pela empatia. A gente entende que um evento não começa no dia da montagem e não termina quando o último participante vai embora. Ele começa no primeiro contato e se estende até o pós-evento. Isso envolve desde processos cla­ros, tecnologia, atendimento humanizado, até a integração com fornecedores e parceiros. A minha preocupação sempre foi criar um padrão de exce­lência consistente, do estacionamento à limpeza, da recepção à tecnologia. Tudo comunica.

HO: O Rebouças faz parte de um ecossistema bastante singular, ligado a um hospital público e, ao mesmo tempo, inserido no mercado com­petitivo de eventos. Como é equilibrar essas duas dimensões?

AL: É um equilíbrio delicado, mas muito enriquece­dor. O complexo hospitalar do Hospital das Clíni­cas é o maior da América Latina, com uma missão pública muito clara. Ao mesmo tempo, o Centro de Convenções Rebouças precisa ser eficiente, competitivo e sustentável financeiramente. Esse equilíbrio exige governança, transparência e uma gestão muito profissional. Nós temos autonomia operacional, mas estamos vinculados a diretri­zes institucionais fortes, inclusive de integridade e compliance. Somos extremamente rigorosos nos processos e, ao mesmo tempo, inovadores.

HO: Durante a pandemia, muitos centros de con­venções fecharam. O Rebouças teve um papel di­ferente nesse período. Como foi essa experiência?

AL: Foi um período muito duro, mas também muito simbólico. Enquanto os eventos pararam, o Rebou­ças se transformou em um grande centro logístico do Hospital das Clínicas. Recebemos equipamen­tos hospitalares, doações, atuamos como base de imprensa, ponto de apoio para autoridades de saúde. A primeira vacina contra a Covid-19 aplica­da no Brasil foi no HC, e o Rebouças esteve envol­vido em toda essa operação. Isso reforçou muito o nosso senso de propósito. Não éramos apenas um centro de convenções, éramos parte ativa de uma resposta à crise sanitária.

HO: Como você enxerga o atual momento do se­tor de eventos, impulsionado pela forte retoma­da pós-pandemia, de uma demanda reprimida?

AL: Houve uma explosão de demanda. As pessoas queriam se encontrar, se olhar, trocar experiências. O presencial voltou com muita força. O digital ficou como complemento, mas não substitui o encontro humano. Hoje, os eventos são muito mais estraté­gicos. Eles precisam gerar valor real, experiências relevantes e conexões genuínas. O público está mais exigente, e isso eleva o nível de todo o setor.

Ana Luísa Diniz Cintra, diretora geral do Centro de Convenções Rebouças
Diretora geral do Centro de Convenções Rebouças há 27 anos, Ana Luísa Diniz Cintra construiu uma liderança marcada pela visão sistêmica, pelo cuidado com as pessoas e pela capacidade de integrar reputação, eficiência operacional e impacto social – Foto: Divulgação

HO: Tecnologia e dados se tornaram fundamen­tais para elevar a experiência dos eventos. Como isso se traduz na prática no Rebouças?

AL: Nós investimos fortemente em tecnologia. Im­plementamos um sistema integrado da Totvs to­talmente customizado para a nossa realidade. Foi um processo complexo, porque eventos têm mui­tas variáveis, mas hoje temos uma gestão muito mais eficiente, integrada e orientada por dados. Isso melhora a experiência do cliente, aumenta a eficiência operacional e fortalece o relacionamen­to no pré, durante e pós-evento. Mas, a tecnologia, para nós, é meio e não fim. O foco continua sendo o encantamento do cliente.

HO: Como o Rebouças atua na agenda de ESG?

AL: A sustentabilidade faz parte da nossa cultura há muitos anos. Desde 2009, trabalhamos com redução de papel, gestão de resíduos, consu­mo consciente e envolvimento dos fornecedores. Criamos cartilhas de boas práticas para os orga­nizadores, incentivamos eventos carbono neutro, trabalhamos com parceiros comprometidos com reutilização de materiais, acessibilidade e impacto social. ESG não é um projeto paralelo, é uma mu­dança de cultura. Não tem volta.

HO: A sua trajetória dentro do Hospital das Clí­nicas também trouxe uma vivência profunda em políticas públicas e sociais. Como essa experiên­cia influencia a forma como você enxerga ESG e sustentabilidade na gestão do Rebouças?

AL: Influencia totalmente. Trabalhar dentro do Hospital das Clínicas é conviver diariamente com políticas públicas na prática, não apenas no discurso. O HC é um gigante da saúde pú­blica, com uma responsabilidade social imensa, e isso molda o nosso olhar. A saúde é um bem precioso, talvez o mais essencial de todos, e ali ela é tratada com muito respeito, seriedade e cuidado. Essa vivência amplia a compreensão de ESG para além da agenda ambiental. Esta­mos falando de impacto social real, de acesso, de equidade, de responsabilidade com as pes­soas e com a sociedade. Quando você faz parte desse ecossistema, entende que sustentabilida­de não é apenas reduzir resíduos ou compen­sar carbono, é pensar no efeito das decisões no coletivo, no longo prazo. Levo muito desse aprendizado para o Rebouças. O centro de con­venções não está isolado da cidade, do sistema de saúde ou da sociedade. Ele faz parte de tudo isso. Por isso, nossas práticas de ESG dialogam com governança, integridade, políticas públicas e cultura organizacional. É uma visão mais am­pla, mais madura, que vem dessa convivência diária com um ambiente onde o impacto social não é uma opção, é uma missão.

HO: Como você enxerga a evolução da liderança feminina nos setores de eventos e associativis­mo, dos quais você faz parte, e que sempre fo­ram majoritariamente masculinos?

AL: Houve avanços, mas ainda somos poucas. Exis­tem muitas mulheres competentes na operação, na produção, na organização de eventos, mas quando você olha para as lideranças de entidades e grandes estruturas, a maioria ainda é masculina. Eu me sinto respeitada, mas sei que isso é fruto de uma trajetó­ria longa, de consistência e entrega. Precisamos criar mais espaços, incentivar, apoiar e dar visibilidade às mulheres que lideram para mudar esse cenário.

HO: Ser mulher influencia sua forma de liderar?

AL: Acredito que sim, principalmente na forma de olhar o todo. A mulher tende a ser mais integradora, mais cuidadosa com as relações e com o impacto das decisões. Eu sempre tive uma liderança baseada no diálogo, no respeito e na construção coletiva.

HO: Depois de tantos anos à frente do Rebou­ças, o que ainda a motiva?

AL: O desafio diário. Sempre surge algo novo. O setor de eventos é dinâmico, vivo. Além disso, o Rebouças faz parte da minha história, da minha identidade. Ele representa uma ponte entre negó­cios, conhecimento, saúde e impacto social. O Re­bouças tornou-se um dos centros de convenções mais premiados do Brasil, com mais de 20 ao lon­go de sua história, incluindo o Jacaré de Ouro do Prêmio Caio, o ‘Oscar dos Eventos’, além de indi­cações ao Top of Mind de RH, World MICE Awards e Marca Brasil. Esse reconhecimento é fruto do trabalho conjunto de toda equipe. Eu tenho uma equipe muito madura, formada por profissionais com ampla experiência, o que facilita o crescimen­to, o aprendizado e o atendimento assertivo. Por isso temos um enorme número de clientes fideli­zados, que têm prazer de fazer o evento conosco. Enquanto eu sentir que posso contribuir, melhorar processos, desenvolver pessoas e fortalecer esse ecossistema, eu sigo motivada.

Por Luciana Albuquerque