
Com uma trajetória de 13 anos na RX (Reed Exhibitions), Mayra Nardy ascendeu como uma das líderes mais estratégicas do mercado de eventos e exposições no Brasil. Sua jornada inclui passagens por feiras robustas como Bienal do Livro, ExpoLux, FieE, Febrava e a Feicom, até assumir a gestão de um portfólio que abrange setores diversos como construção, hospitalidade, cultura e bioenergia.
Seu desafio mais recente e notório é a liderança do Salão do Automóvel. Em mais de 60 anos de história do evento, Mayra Nardy é a primeira mulher a assumir sua direção, um marco que ressalta o avanço da liderança feminina em um segmento historicamente dominado por homens, como o automotivo.
O Salão do Automóvel, que tem mais de 60 anos no Brasil, nasceu para impulsionar a indústria automobilística local. A primeira edição, em 1960, já reuniu 11 expositores e 400 mil visitantes, o que reforçou seu papel vital no desenvolvimento do setor. Ao longo das décadas, o evento evoluiu, acompanhando as grandes transformações da indústria.
Nesta entrevista para a Hands On Magazine, Mayra também comenta como a RX está apostando no uso estratégico de dados e inteligência artificial e dados para aprimorar experiências e resultados de negócios entre expositores e visitantes e fomentar um setor que movimenta a economia de São Paulo e do Brasil; revela as novidades para a edição atual do Salão do Automóvel, que retorna ao Distrito do Anhembi após sete anos trazendo dez experiências diferentes: “um parque de diversões para os apaixonados por carros”, como ela mesma define. E comenta sobre os desafios das mulheres, que enfrentam jornada dupla ou tripla, para alçarem postos de liderança no mercado de trabalho, como isso, impulsiona uma boa execução de tarefas e gestão de tempo, e a importância da equidade na prática, dentro de casa e nas empresas.
HandsOn: Como você entrou nesse universo de eventos?
Mayra Nardy: Sou formada em Design e minha trajetória na RX começou há 13 anos, em 2012, quando ingressei na empresa para atuar na organização de feiras. A partir dali, iniciei uma jornada que me tornou especialista em eventos, passando por setores distintos. Coordenei por três vezes a Bienal do Livro e praticamente todos os portfólios da empresa, como ExpoLux, FIEE e Febrava. Cheguei a liderar a Feicon – o maior evento anual da RX, voltado para a construção civil –, durante quatro anos. Após esse período, assumi a gestão do portfólio, que hoje abrange os segmentos de construção, hospitalidade, cultura, bioenergia e automotivo – incluindo, além do Salão do Automóvel, a Fenatran, feira dedicada a caminhões. São, portanto, 13 anos de atuação consolidada nesta indústria.
HO: Como é liderar uma empresa como a RX, dentro de um setor responsável pela geração de tantos negócios e empregos?
MN: É uma posição desafiadora e ao mesmo tempo muito gratificante. O turismo de negócios, que abrange diversos setores da indústria, tem ganhado cada vez mais visibilidade. Pós-pandemia, o setor como um todo se reestruturou e se fortaleceu. Temos recebido um número crescente de visitantes, e os eventos de negócios – não apenas os da RX – têm reforçado a importância desse setor para a cidade de São Paulo e para o país. Nosso propósito central é gerar negócios para os participantes, e acredito que temos cumprido essa missão da melhor forma possível.
HO: E como a RX está incorporando inovações – como tecnologia e sustentabilidade – sem perder o foco principal, que é fechar negócios?
MN: A inovação é um pilar estratégico para modernizar a tradição. As ferramentas digitais, longe de substituírem o contato pessoal, fortalecem o face to face. No pavilhão, esse reforço se torna crucial. A RX tem um “braço” especializado em análise de dados e de mercado, o que nos permite trabalhar fortemente baseados em informações e usar inteligência artificial para impulsionar negócios e fazer um matchmaking mais assertivo entre expositores e visitantes. A tecnologia nos permite personalizar a jornada do participante, cruzando o comportamento e as buscas de quem visita com o portfólio de quem expõe. O resultado é uma entrega assertiva: conectar o que o expositor tem a oferecer ao visitante certo, que está ativamente buscando aquela solução. Assim, conseguimos manter a essência do fechamento de negócios, mas com uma eficiência e uma taxa de sucesso significativamente maiores. E isso vai além dos estandes. Um evento de negócios moderno é uma curadoria de experiências – incluindo estandes, test-drives, palestras e atividades imersivas –, e usamos os dados para orquestrar tudo isso de forma integrada e eficiente. Quem não souber trabalhar com dados hoje está, de fato, perdendo oportunidades.
HO: De que forma essas tecnológicas são aplicadas na prática para apoiar os expositores?
MN: Temos uma equipe totalmente dedicada ao sucesso do cliente, que faz o acompanhamento de cada expositor para garantir que ele potencialize ao máximo sua participação, utilizando todas as ferramentas que disponibilizamos. Oferecemos diversas soluções inclusas no pacote de participação, além de outras opcionais, que são adaptadas de acordo com o objetivo de cada um. Se o foco é reforço de marca, exposição ou o lançamento de um produto, temos ferramentas específicas para cada caso. Para um lançamento, por exemplo, podemos mapear e cruzar dados para identificar e conectar o expositor ao público-alvo exato daquela novidade.
HO: E como vocês medem se esse suporte está gerando um retorno tangível para o expositor?
MN: Disponibilizamos um dashboard de participação que permite ao expositor comparar seu desempenho com o de empresas de porte similar. Ele consegue visualizar se está captando mais ou menos leads que a média do evento e analisar o que outros expositores fizeram ou investiram para obter melhores resultados. É um nível de transparência e informação muito detalhado.
HO: O Salão do Automóvel terá mais de 15 mil veículos em exposição em cinco pavilhões. Quais as expectativas e novidades para quem vai visitar essa edição?
MN: Esta é uma edição marcante, pois é o retorno do Salão após um hiato de sete anos – a última edição foi em 2018, no São Paulo Expo. Agora, estamos voltando para a casa original do evento, o Distrito Anhembi, que passou por uma completa reforma. Ocuparemos integralmente seus cinco pavilhões. Uma das grandes novidades é a realização de test-drives on road e off road, dentro do próprio pavilhão. Isso garante que as experiências não serão impactadas por condições climáticas, assegurando uma visita dedicada e imersiva. Serão mais de dez experiências diferentes, todas pensadas para criar um ambiente automotivo completo. Teremos uma área de transformação de veículos, simuladores, exposição de supermáquinas, veículos antigos e modelos icônicos – alguns tão exclusivos que às vezes há apenas um modelo no país, que não se veem nas ruas no dia a dia –, além dos estandes das montadoras, onde o visitante poderá conferir os últimos lançamentos e o que está chegando ao Brasil, e um espaço dedicado às crianças. Brincamos que é um verdadeiro parque de diversões para os apaixonados por carro, contemplando todos os gostos e perfis. Todo esse escopo é resultado de um trabalho intenso de mais de dois anos de preparação, em uma parceria sólida com a Anfaveia (Associação Nacional dos Fabricantes e Veículos Automotores) e as montadoras. Será um retorno em grande estilo. Nossa meta é garantir que cada visitante tenha a melhor experiência possível, de forma confortável e que saia de lá encantado. Queremos que ele participe de tudo, desde as experiências oficiais até as novidades preparadas pelos expositores em estandes que estão verdadeiramente lindíssimos. O objetivo é que ele vivencie plenamente esse ambiente e termine o passeio com os ‘olhinhos brilhando’.
HO: Você enxerga que os eventos B2B estão seguindo essa linha, com as feiras se transformando em experiências imersivas, quase como um espetáculo?
MN: O Salão do Automóvel é um evento para o público final, com uma forte conexão emocional, sendo por natureza um evento de experiência. No entanto, os eventos de negócios (B2B) também passaram por uma reinvenção significativa nesse sentido. A mudança no perfil das gerações exige que entreguemos experiências para atrair o visitante. Ele não vai apenas para ver novidades que poderia acessar digitalmente, mas para experimentar, ter imersão no setor e comparar concorrentes no mesmo ambiente. Ele faz a jornada completa: vê a novidade, compara preço e tecnologia, participa de lançamentos, experimenta na prática e, por fim, faz o negócio. É crucial ter dados em mãos para adaptar essa estratégia a cada tipo de evento, pois temos perfis muito distintos no B2B – desde eventos focados em comparação, lançamento de tecnologia ou renovação de estoque. Mas, sem dúvida, todos hoje incorporam muito conteúdo e experiência imersiva para oferecer uma vivência completa.
HO: Considerando as tendências globais, o grande destaque do Salão este ano está na mobilidade elétrica e nas novas tecnologias?
MN: Sem dúvida as novas tecnologias são um show à parte e prometem atrair muitos olhares. É um ambiente onde o visitante consegue comparar tudo. E vamos ter muito conteúdo educacional para que ele entenda a diferença entre um veículo 100% elétrico, um híbrido e um híbrido plug-in, por exemplo. A ideia é que ele saia dali em um ambiente propício para a tomada de decisão, com a certeza de qual é a melhor tecnologia para o seu perfil e o melhor tipo de veículo para adquirir.
HO: Como está sendo a estratégia da RX com influenciadores digitais para a comunicação do Salão do Automóvel?
MN: Estamos trabalhamos consistentemente com influenciadores na RX e para o Salão temos ampliado essa estratégia. Desde a última edição, em 2018, o comportamento digital e o perfil do creator evoluíram muito, estando agora profundamente inseridos no contexto de lifestyle e de consumo. Eles se tornaram uma parte importante do nosso plano de mídia e comunicação. Nossa campanha de mídia é robusta, o que inclui os parceiros de mídia tradicionais – tanto os especialistas do setor quanto os veículos generalistas – e os influenciadores compõem hoje uma fatia significativa desse investimento. A curadoria é ampla para atingir todos os públicos. Contamos desde jornalistas especialistas, que são influenciadores naturais do setor, até criadores que são simplesmente apaixonados por carros – sejam homens ou mulheres –, que constroem conteúdo genuíno sobre o tema. O brasileiro tem uma paixão por automóveis, e isso se reflete nesses diversos perfis.

HO: Como foi ingressar e atuar no setor automotivo, um ambiente historicamente dominado por homens? Você enfrentou barreiras significativas?
MN: A situação mudou muito desde quando eu comecei, e eu diria que essa mudança começou internamente. A RX sempre valorizou muito a diversidade e foi uma empresa muito inclusiva. Minha jornada aqui dentro se deu de forma independente de qualquer viés. Reconhecemos que existem setores com perfil mais masculino, como a construção civil, no qual atuei por mais de quatro anos. No entanto, a RX sempre me empoderou para essas negociações, garantindo que o relacionamento acontecesse da melhor forma. Dentro da empresa, sou muito respeitada, e esse apoio interno faz toda a diferença. As conversas são sempre muito pacíficas e focadas na participação. O setor, de modo geral, tem abraçado a diversidade. Se houve dificuldades, foram mais no início da minha carreira, há uma década, nas negociações com empresas externas. Naquela época, o cenário era diferente. Atualmente, as relações são bastante tranquilas. Lido muito bem com todos os setores, não apenas o automotivo, mas também com a construção civil e o setor sucroenergético, como na Fenasucro. Ter o respaldo de uma cultura organizacional como a da RX, que valoriza a diversidade, é fundamental para que essa integração seja bem-sucedida.
HO: Como a RX institucionaliza a promoção da diversidade, equidade e inclusão?
MN: Temos uma estrutura sólida. Inclusive, atuo como sponsor do Grupo de Diversidade e Inclusão da RX aqui no Brasil. Trabalhamos com diversos pilares, que vão além da equidade de gênero, abrangendo inclusão racial, etária e de pessoas com necessidades especiais. Cada pilar tem seus representantes, e essa é uma diretoria de escopo global. Portanto, essa cultura de diversidade e inclusão é abraçada pela RX mundialmente. Está presente no nosso dia a dia e é parte do DNA da empresa.
HO: E como esse princípio se reflete na prática, especialmente nos eventos que organizam?
MN: Todos os nossos eventos são projetados para serem extremamente inclusivos. A cada edição, tentamos inovar, incorporando uma nova frente de inclusão e incentivando a participação diversificada. Essa não é apenas uma preocupação teórica, mas uma realidade tangível, tanto dentro dos nossos escritórios quanto na operação global. É um pilar central da nossa atuação.
HO: Com base na sua trajetória, qual conselho você daria a outras mulheres que buscam posições de liderança?
MN: Tive a grande oportunidade de estar em uma empresa que abraça a diversidade, e reconheço que muitas enfrentam dificuldades maiores, como a necessidade de trabalhar em dobro para reforçar seu posicionamento de uma forma que não é exigida dos homens na mesma posição. Minha orientação é focar em ser a melhor versão de si mesma, sem se comparar com os colegas homens. Essa comparação é desgastante porque as realidades são diferentes, especialmente considerando os papéis sociais distintos, como a maternidade e a gestão da casa. A jornada tripla exige que, nós, mulheres, priorizemos a excelência na gestão do tempo e na qualidade do que entregamos. É crucial fazer muito bem-feito e dentro do prazo, pois a demanda externa à empresa é constante. A eficiência e a entrega de qualidade são fundamentais.
HO: Essa capacidade de gestão, desenvolvida pela dupla ou tripla jornada, é um trunfo para os resultados das empresas?
MN: Sem dúvida. Demorou para o mercado enxergar, mas hoje já existem estudos que comprovam os resultados positivos em empresas com mulheres na liderança. Essa habilidade de organizar tudo de forma eficiente, que praticamos na vida pessoal, quando aplicada ao trabalho, faz uma diferença significativa. No entanto, é importante destacar que, se houvesse uma divisão mais equilibrada das responsabilidades domésticas, as mulheres poderiam entregar ainda mais profissionalmente, pois a sobrecarga em casa ainda é majoritariamente delas. A mulher mãe, em particular, desenvolve uma gestão de tempo excepcional. Cabe ressaltar, porém, que esse papel de “super-heroína” não é positivo, pois gera um cansaço extremo.
HO: E como o apoio da empresa é fundamental nessa equação?
MN: O suporte organizacional é um pilar. A RX tem uma preocupação genuína com o nosso bem-estar físico e mental, entendendo que isso é crucial para exercermos nosso trabalho da melhor forma. Esse apoio é fundamental. A empresa que reconhece e valoriza a mulher na liderança, criando condições para isso, é uma empresa que colhe melhores resultados.
Por Luciana Albuquerque





